Acabou a Vila Tassi, mas não acabou o Samba…
- Isabela Borges

- 15 de mai.
- 3 min de leitura

Entre a região da atual Vila Capanema e os arredores do Prado Velho, se localizava a antiga Vila Tassi. Hoje extinto, o bairro ainda carrega heranças de seus antigos moradores; trabalhadores ferroviários afro-curitibanos que tiveram um papel crucial na construção histórica do carnaval da capital paranaense. Com seu legado, a região é considerada até hoje um berço do samba e do futebol em Curitiba.
De lá nasceu a primeira escola de samba popular da cidade, a Colorado. Fundada em 1946 por Ismael Cordeiro, o Maé da Cuíca, a escola contribuiu levando a cultura negra para as ruas de Curitiba e participando de movimentos de resistência. Nos desfiles, se destacavam com a renomada "bateria nota 10" e ganharam notoriedade nacional na década de 1970 ao levar o samba curitibano para o carnaval do Rio de Janeiro, onde venceram o concurso de novos compositores no Morro da Mangueira.
Assim como para a Colorado, o antigo bairro também foi lar da escola de samba Acadêmicos da Sapolândia. Fundada em 1970, onde hoje se localiza o Prado Velho, a agremiação foi fundada por Júlio Sousa e seu grupo de amigos moradores do bairro. Logo em sua estreia, no carnaval de 1971, a agremiação causou um impacto imediato. Com o enredo "Uma Feira na Bahia", a escola superou as expectativas e foi coroada a grande campeã da cidade naquele ano.
Com o encerramento da Sapolândia, no início década de 90, e da Colorado, em 2001, a cena do samba em Curitiba perdeu dois de seus maiores nomes, mas não a vivência desses sambistas. Mesmo depois do fim, as trajetórias de ambas permanecem como pilares fundamentais, servindo de inspiração para os novos movimentos que mantêm viva a resistência e a tradição do samba curitibano. Quando as escolas deixaram de desfilar, o conhecimento e a paixão desses integrantes não desapareceram; eles se dispersaram pela comunidade e acabaram se reencontrando na Vila Capanema. É dessa união entre os remanescentes das duas agremiações que nasce a Velha Guarda do Samba da Vila Capanema, um grupo formado para manter vivo o repertório e a história das antigas escolas.
O grupo realiza, com o apoio da Fundação Cultural de Curitiba, desde 2024, rodas de samba na Feira Livre do Prado Velho, com o intuito de apresentar a cultura do samba para as crianças e jovens. O projeto promove oficinas de percussão, voz cantada e cordas (cavaquinho e violão), a fim de formar uma nova geração de músicos e batuqueiros.O evento acontece no segundo domingo de cada mês; De forma gratuita, o Samba na Feira convida as famílias da comunidade a levarem suas cadeiras de praia e sua alegria para ocupar o espaço e fazer samba.
Para o policial penal de 61 anos e organizador do coletivo, Clayton Auweter, o projeto nasceu de uma necessidade urgente. "Na pandemia, perdemos muitos dos nossos mais velhos, que eram a base da Vila Guarda", explica. "Percebemos que precisávamos deixar a semente para que o samba continue."
Sambista desde os 10 anos de idade, Clayton vê a importância de transmitir a herança do samba para a nova geração. Para ele, a escola de samba deve atuar como sua própria fornecedora de mão de obra e conhecimento. "Se eu preciso de um marceneiro para fazer um carro alegórico, eu tenho que formar dentro da escola. Serralheiro, aderecista... é uma formação profissional que o jovem leva para a vida toda", defende. Ele ressalta que esse papel social é vital para oferecer aos jovens referências positivas, longe da criminalidade.
Com mais de cinco décadas de trajetória nesse meio, Clayton não pretende parar. Juntamente aos demais idealizadores da Velha Guarda do Samba da Vila Capanema, ele continua percorrendo as escolas da cidade, como a Mocidade Azul e a Deixa Falar, sempre pronto para colaborar e compartilhar o legado de uma das mais ricas e tradicionais culturas brasileiras.



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