O que incomoda tanto no Carnaval?
- Kauany Barbieri

- 15 de mai.
- 3 min de leitura

Estamos diante de uma tentativa de apagamento cultural.
Enquanto sambistas, blocos e escolas de samba lutam há décadas para manter viva uma manifestação cultural importante da cidade, o vereador Eder Borges propõe fazer o caminho inverso, proibir o uso de recursos públicos para atividades relacionadas ao carnaval em Curitiba.
A proposta não afeta apenas os desfiles. Se aprovada, poderá atingir ensaios, eventos de pré-carnaval, compra de materiais, instrumentos, estruturas e diversas atividades que garantem o funcionamento das escolas e blocos ao longo do ano. Na prática, trata-se de uma tentativa de enfraquecer toda uma rede cultural construída por gerações de curitibanos.
O discurso utilizado para defender o projeto é conhecido. Dizem que o dinheiro deveria ser investido em outras áreas e que o carnaval não deveria receber recursos públicos. Mas essa argumentação parte de uma falsa escolha. Cultura também é uma política pública. Cultura também produz desenvolvimento, gera empregos, movimenta a economia e fortalece comunidades.
Clayton Agostinho Auweter, organizador do Samba da Velha Guarda da Vila Capanema, relembra que houve uma época em que as escolas do Grupo Especial recebiam R$ 80 mil para realizar seus desfiles. Segundo ele, era um valor tão baixo que praticamente não permitia fazer nada. Foi a partir da organização das próprias escolas, que criaram fóruns, se mobilizaram politicamente e passaram a reivindicar seus direitos, que os recursos começaram a aumentar.
Cada conquista veio após anos de mobilização de pessoas que acreditavam que Curitiba também tinha direito ao seu carnaval. Pessoas que dedicaram seu tempo para manter viva uma tradição que existe na cidade há mais de um século.
Por isso, a proposta de Eder Borges não pode ser vista apenas como uma questão administrativa. Ela representa uma tentativa de desmontar uma construção coletiva que levou décadas para acontecer.
As escolas de samba não produzem apenas desfiles. Elas formam pessoas. Como lembra Clayton, uma escola de samba deve ser capaz de ensinar ofícios, desenvolver talentos e criar oportunidades dentro da própria comunidade. Marceneiros, serralheiros, costureiras, aderecistas, músicos e compositores muitas vezes encontram nesses espaços a chance de aprender uma profissão e construir um futuro.
Mais do que isso, as escolas oferecem algo que nenhuma planilha de orçamento consegue medir, o pertencimento.
Em um momento em que tantos jovens crescem sem referências comunitárias, o carnaval continua oferecendo espaços de convivência, aprendizado e identidade cultural. Atacar essas instituições é ignorar completamente sua função social.
O que muitas vezes é tratado apenas como festa é, na verdade, um patrimônio construído também pela população negra. As escolas de samba surgiram em comunidades que fizeram da cultura uma forma de resistência diante da discriminação e da exclusão social. Por isso, quando se tenta inviabilizar o carnaval por meio do corte de recursos, não se está apenas discutindo orçamento. Está-se colocando em risco uma tradição que carrega história, memória e identidade, como se a cultura de milhares de pessoas pudesse ser descartada por não agradar determinados grupos.
Eder Borges tem o direito de não gostar de carnaval. O que não deveria ter é a pretensão de utilizar um projeto de lei para enfraquecer uma manifestação cultural que pertence a milhares de pessoas. Porque o papel do poder público não é escolher quais culturas merecem existir. É garantir que todas elas tenham espaço para continuar existindo.
Curitiba tem o hábito de repetir que não é uma cidade de carnaval. A história mostra o contrário. A cidade teve corsos, blocos, bailes, escolas de samba tradicionais e milhares de pessoas que fizeram da folia uma parte importante de sua identidade cultural.
Ignorar essa trajetória é ignorar a própria história da cidade.



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